Feeds:
Posts
Comentários

Uma das desvantagens da bem-aventurança durante a vida, ou seja, dos momentos de júbilo e onde tudo dá certo, é a cegueira pela qual somos acometidos. Sobretudo com o nosso entorno. Quando essa maré se prolonga, então, ficamos entorpecidos pelos êxitos e pelas nossas conquistas. Não necessariamente nos tornamos arrogantes, mas nos esquecemos das consequências do resultado oposto.

Essa circunstância pode gerar o risco de nos vermos rodeados de lobos em peles de cordeiro, pessoas cujos aplausos ressoam em nossos ouvidos como aprovações e suporte. Nós escolhemos enganar-nos e acreditar nessa ilusão dos sentidos, onde falsos sorrisos e aplausos que escondem raiva e inveja nos iludem e nos fazem, inocentes, sonhar com amizades, suporte, consideração e humanidade.

Mas a humanidade vem morrendo já há muito tempo…restam seres humanos, mas não humanidade. Compreensão, paciência, são atributos cada vez mais raros. Mas as vicissitudes e peripécias da vida nos fazem por vezes despertar deste “sono letárgico” de júbilo, onde tudo aparentemente funciona no melhor dos mundos, como para um Cândido, e nos vemos em realidade vivendo em algo como Dogville, o filme.

A importância de se passar pelas trevas e abismos, cair e literalmente se esborrachar, é a velha experiência pela qual os gregos amavam passar: fazer da vida um laboratório, sentir e experimentar de tudo, passar pelo maior número de experiências nesta vida e aprender com elas, fazer da vida um permanente inquirir, perguntar, descobrir e, finalmente…viver.

Aprendemos a perceber o nosso entorno quando falhamos, falhamos feio, quando caímos, quando, apesar de termos feito 10, 100 vezes tudo da melhor e mais correta forma possível, por uma única vez, nos equivocamos, nos precipitamos, somos irresponsáveis, enfim, humanos. Errar é humano, diz o ditado. E acertar também, digo eu. Portanto ambos são condições da vida e momentos pelos quais passamos.

E justamente no momento de debilidade, quando se abre a brecha para todos os que aguardavam ansiosamente pelo seu declínio, vemos quem realmente ainda possui humanidade, respeito, amizade, ou todos estes valores juntos. Diz um provérbio sueco, muito sábio: Me ame quando eu menos merecer, pois é quando mais precisarei. Apoiar e aplaudir quando tudo corre às mil maravilhas, muito simples. No infortúnio, ali separamos o joio do trigo.

Antes de mais nada, precisamos todos fazer algo fundamental e do qual muitos se esquecem nesses momentos. Respirar fundo, refletir, analisar o cenário friamente, com muita calma, e somente então nos pronunciarmos a respeito. A situação é bastante complicada, sim, mas exige de nós tranquilidade. O resultado da eleição reflete muito a realidade brasileira, os costumes, os valores, as vãs esperanças e as ilusões. Já vimos esse filme.

Fôra preciso um grande comprometimento com uma causa maior, acima de gostos pessoais, preferências por esta ou aquela ideologia, paixões violentas e arrebatamentos de justiça, moral ou qualquer outro valor. Fôra preciso pensar estrategicamente, escolher o melhor caminho para derrotar o inimigo, abrindo mão de qualquer outra questão. Fôra preciso uma maneira de agir de acordo com os princípios do maquiavelismo. Não aconteceu.

Por ignorância, falta de senso prático e sobretudo falta de conhecimento da história, permitiu-se a eleição do candidato mais improvável de todos, assim como aconteceu com Donal Trump nos Estados Unidos. Tivemos nossos quase vizinhos como exemplo e não nos demos conta de nossa própria situação, semelhante, em alguns pontos, à situação americana, no que tange à eleição. 

Sim, houve certa mobilização pelo voto consciente, pela análise das propostas de cada candidato, por uma maior informação a respeito dos agentes da política no país. Mas justamente nisso enxergamos um problema. O povo acreditou ser importante analisar as propostas de governo, os temas abordados, os desempenhos nos debates, esquecendo-se do fundamental. Na maioria esmagadora das vezes o candidato eleito não faz 10% do prometido e alardeado em sua campanha.

Acreditou-se, de maneira cândida, na importância da análise de indivíduos, esquecendo-se completamente da análise do sistema. Deu-se demasiado valor a homens, aqui referindo-nos à pessoas, candidatos, e esqueceu-se do olhar panorâmico. Em lugar de subirmos ao alto da montanha e olhar o cenário de cima, escavamos a terra com os olhos grudados no solo buscando pequenos vermes, buscando encontrar algo ínfimo que justificasse toda nossa irracionalidade.

Essa foi uma eleição das paixões cegas, não da razão. Foi uma eleição do duelo acirrado entre diferentes ódios, não do embate entre diferentes amores e conciliações. Foi uma eleição de guerra ideológica, não de debate e proposta política. Foi uma eleição onde imperou enormemente um moralismo encenado, falso, nebuloso. Foi uma eleição para marcar a história de um país e retratar perfeitamente os tempos atuais. 

Se nos lembrarmos do 18 Brumário de Karl Marx, veremos uma passagem quase profética da realidade que se nos avizinha. “E por fim, os próprios sumos sacerdotes da “religião e da ordem” são escorraçados a pontapés dos seus trípodes píticos, tirados de suas camas na calada da noite, enfiados em carruagens prisionais, jogados em cárcere ou mandados ao exílio, o seu templo é arrasado, sua boca é selada, sua pena quebrada, sua lei rasgada, tudo em nome da religião, da família, da propriedade, da ordem”. 

Todos os defensores desses supostos valores acima de bem e mal deverão se lembrar disto quando a conta vier. Pois nenhuma decisão permanece impune. O preço a ser pago há de ser cobrado, mais cedo ou mais tarde, e não nos permitamos esquecer quais escolhas nos levaram ao lugar em que chegaremos nos próximos anos. Que a memória, tão débil quanto nossa capacidade de juízo, possa ascender ao menos uma vez e fazer com que todos os que colaboraram para este desfecho se lembrem de suas escolhas.

É nos tempos de grande perigo e de graves crises da consciência – e portanto dos valores – que surgem os filósofos, resultado de condições extremas e necessárias a cada certo período de tempo na história. Mas é também nestes mesmos períodos que vemos surgir o seu oposto, ou o seu diverso: os oportunistas. Se os filósofos aparecem para refletir, pensar a respeito do momento crítico, o oportunista surge para aproveita-lo para si e seus aceclas.

Em momentos como este, o nível de irracionalidade humana sobe a picos nunca antes alcançados, chega a alturas inauditas e transforma os seres humanos em bestas cegas, irrascíveis e facilmente enganáveis, manipuláveis. O ser humano se torna um mero fantoche, uma marionete em mãos hábeis e espertas o suficiente para tirar proveito de uma situação extrema. Este é o caso não apenas no Brasil, hoje, outubro de 2018, mas da humanidade nos últimos anos.

O oportunista normalmente aparece muito mais, fica muito mais em evidência em relação aos filósofos, pois simplesmente age, torna visível através de atitudes, realizando fatos, tudo aquilo que pensa e que vai de encontro aos anseios do povo para o qual governa, reina. O filósofo permanece à sombra, quase esquecido, semi-escondido, trabalhando nos subterrâneos dos acontecimentos, pois sua abordagem é mais minuciosa, detalhista, sutil. Passa imperceptível e somente muito depois nota-se sua contribuição, quando os fatos já se consumaram.

Para não viajarmos muito longe no tempo, permaneceremos nos acontecimentos mais recentes da história da humanidade. Sequer sairemos do século XX. Nos albores deste século, vimos uma Europa em frangalhos, despedaçada após um século de muitas revoluções e guerras. Fome, desemprego, pobreza, dificuldades. Atento a tudo isso, estava um oportunista. Surgiu como um raio, dizendo exatamente o que a população precisava ouvir, seduzindo-a com as ilusões mais doces e convincentes. E a Europa viu o florescimento de Hitler. 

Industrialização rápida, ferrovias e rodovias ligando todo o país, desemprego praticamente zerado, Alemanha crescendo como nunca. Mas o oportunista, diferente do filósofo, cobra seu preço. Suas ações no teatro da política trazem sempre na bagagem uma conta a ser paga. É o sacrifício a ser feito por um resultado muitas vezes imediato, quase nunca duradouro. E o povo termina por achar demasiado caro o preço a ser pago. Entregar sua alma, sua liberdade, sua arte, seus princípios mais elementares, a troco de uma solução cujos desdobramentos poucos imaginavam.

O Brasil mesmo viveu esta situação na década de 60 do século XX. O fim da corrupção, a ordem na casa, a preservação dos valores mais importantes. O preço, novamente, foi a liberdade, a alma, a arte, em muitos casos a vida. Desta vez não se tratou de um indivíduo oportunista, mas de um grupo, eles também oportunistas, a assumir o controle do país. E em nome da família, da ordem e progresso, dos bons costumes, rasgou-se a constituição, despedaçou-se os direitos humanos, ignorou-se qualquer limite, pois os fins estavam acima de qualquer valor.

Novamente temos a situação na qual um oportunista pretende ascender, fazendo uso de um momento de grave crise de valores e de consciências no Brasil. Se um dia o PT, enquanto grupo, foi oportunista ao se apropriar do termo “Trabalhador” para chegar ao poder e fazer o que fizeram, hoje temos outro oportunista, se aproveitando do termo “Corrupção” – termo extremamente apelativo e em voga nos dias atuais – para chegar ao poder. E novamente temos um povo cego, desesperado, desorientado e mentalmente fraco, pronto a entregar-lhe o país e as almas numa bandeja.

Poderá esse oportunista erradicar a corrupção no país? De que corrupção estamos falando? Banqueiros, industriais e políticos? Ou da “corrupção” em se escolher valores pouco comuns? Erradicaremos problemas ou pessoas, literalmente? E mais: qual o preço a se pagar por isso? Melhor: estão todos cientes de que haverá um preço a pagar por isso? Um preço certamente muito alto? Quão dispostos estão todos a isso? Quão longe queremos chegar, quanto sacrifício estamos dispostos a fazer, em nome de uma virtual solução para um problema obscuramente exposto?

Estamos vivendo em tempos de pouquíssimo entendimento, fraquíssima memória e paupérrima força mental. Ingredientes perfeitos para sermos transformados em gado, em rebanho de falsos pastores, em escravos de falsos heróis, em massa de manobra de falsos líderes. Fôssemos religiosos, a advertência seria para que oremos pelo melhor. Não sendo esse o caso, a advertência é agir. Agir enquanto há tempo…

Talvez tenha existido um tempo, na história humana, de homens inocentes, ingênuos, sequer cientes de seus estados. Estes homens existiam tão naturalmente quanto possível, sem a necessidade de representar ou de assumir certa postura com o fito de impressionar os demais, de defender-se ou de aparentar ser mais para evitar ser atacado ou ser tomado como tolo e portanto abusado de diversas formas.

Mas este tempo passou. Com o passar do tempo, da forma como a sociedade se constituiu, o espaço para estas formas de ser diminuíram cada vez mais, tornando quase impossível a existência de seres humanos absolutamente ingênuos e inocentes. Assumir esta forma de ser, ou melhor, possuir esta forma de ser – porquanto assumi-la pressupõe já reflexão e análise – pode ser considerado temerário.

Com isso, propomos um elogio da ingenuidade, bem como da inocência. À diferença de uma apologia, não pretendemos encorajar alguém a ser assim. Seria enviar um semelhante ao olho do furacão ou à boca do lobo. Porém pretendemos mostrar a importância do cultivo estas características no coração e no espírito, para uma vida mais serena e talvez mesmo sábia.

Maldade e malícia fazem-se necessários como sistemas de defesa, para evitar o abuso por parte dos demais. Alguém não treinado nestas características tende a perecer em nosso mundo, explorado e devorado por todos os seus “semelhantes”. A posse destes atributos nos permite viver sem preocupar-nos com maiores, perigos, porquanto estamos preparados para defender-nos dos mesmos.

Entretanto, o uso cotidiano destas características de forma ativa, prática, e não defensiva, vem sendo observado por nós em todos os âmbitos da vida social. Em lugar de sistemas de defesa, usa-se de maldade e malícia como instrumento de ataque, antes mesmo de se fazer necessário seu uso. Ele tornou-se o modus operandi dos seres humanos, orientando suas ações, pensamentos e dizeres em todos os âmbitos da vida, seja pública ou privada.

O cultivo de valores como ingenuidade e inocência permitiria estabelecer relações menos conflitivas e menos nocivas para quem desejasse seu uso. estabelecer um primeiro contato seria um ato de transparência, de por sinceridade, seja no comércio, na vida familiar, amorosa ou nas relações sociais em geral, tais como amizades ou contatos cotidianos. 

A preservação destas formas de ser, bem como seu uso diário imediato poderia trazer uma mudança significativa na qualidade de vida de forma geral, bem como reduzir os embates desnecessários por motivos duvidosos. Valorizar a inocência e a ingenuidade é orientar a vida em outra direção, buscar outras coisas nas pessoas, nas relações, deixando um pouco de lado interesses egoístas e imediatistas e valorizando resultados a longo prazo.

Quando nos perguntamos a respeito do papel do trabalho na vida humana, abundam respostas para justifica-lo através da ideia de sentido. A maioria destas respostas apontam o trabalho como dignificante, como portador de uma carga de responsabilidade a ser entregue aos seres humanos com o intuito de faze-los melhores e mais responsáveis, ou mesmo, em casos de análise social-política, como ferramenta de dominação e alimentação de um sistema.

Propomos aqui outra abordagem, buscando entender o trabalho como um elemento apaziguador dos desesperos humanos, num sentido existencial. Veremos o trabalho como o elemento através do qual os seres humanos encontram sentido em suas vidas e sentem-se inseridos no mundo. Para isso, evitaremos todas as polêmicas éticas, políticas, morais daí decorrentes. Propomos apenas olha para este fenômeno a partir de outra perspectiva, sem menosprezar as contribuições anteriores.

Em tempos de seres humanos mais fortes, onde a vontade, a determinação, a coragem e a dedicação a algo eram realmente fortes, quase indestrutíveis, tivemos povos nos quais o trabalho era secundário, por vezes mesmo desprezado ou considerado algo degradante, pois o intelecto e as atividades do espírito eram considerados superiores às atividades físicas, braçais, nas quais o pensamento não se fazia tão presente, necessário.

Nessas épocas, seres humanos não dedicados ao trabalho ocupavam-se das artes, das letras, da política. O ócio era visto como fundamental para o desenvolvimento da vida espiritual, pois permitia longos intervalos de dedicação ao estudo. A ideia de ócio não assustava as pessoas, não as fazia sentir-se inúteis, tampouco causava crises existenciais. Era, a rigor, admirada, buscada, exaltada por todos aqueles interessados no conhecimento, tanto de si como do mundo ao seu redor.

Com o passar dos séculos, a invenção do indivíduo, o crescimento das cidades, o florescimento do comércio de espírito capitalista (ainda que muito antes da fundação do capitalismo), o trabalho passou a ser dignificado, relegando o ócio ao posto de inferior. Foi um longo, lento e silencioso processo, sem dúvida, que durou séculos e teve muitos períodos híbridos, intermediários, nos quais esta divisão não se fizera clara completamente, mas opaca, nublada, pouco clara.

Nos tempos atuais, esta divisão está absolutamente esclarecida. O trabalho assumiu o papel principal na vida do ser humano, e todo nosso universo gira em torno dele. Conceber, em nossa época, uma vida sem trabalho, é para muitos conceber uma espécie de morte social, uma morte em vida, uma existência desprovida de sentido, vazia, quase injustificada. O trabalho se impôs – ou foi imposto – como o grande valor da vida.

A pergunta fundamental, no entanto, é a seguinte: estamos prontos, hoje, para uma outra revolução neste sentido? Seja robotizando toda a escala produtiva, seja eliminando o conceito de trabalho e mesmo sua necessidade, tal como a vemos hoje, poderíamos levar uma vida completamente desligada do trabalho? Saberíamos o que fazer de nosso tempo livre, de toda nossa vida livre, de tantas oportunidades disponíveis?

Veríamos algum sentido em seguir vivendo, para aqueles que acreditam no sentido da vida? Teríamos a vontade forte o suficiente para ocupar-nos de atividades do espírito e do corpo, tais como ginástica, letras, artes marciais, artes em geral, sem perguntarmos a nós mesmos qual a razão de nos dedicarmos a tudo aquilo? Deixaríamos de acreditar na importância do acúmulo de bens materiais, ou mesmo virtuais, para termos uma vida plena?

A eliminação do trabalho, tal como o conhecemos e concebemos hoje, pode vir a ser uma realidade, num futuro talvez distante, hoje ainda impensado. Mas antes que isso ocorra, para que a transição seja suave, precisaremos criar as condições de existência posteriores, ainda que em semente, ainda que de forma muito incipiente. O ser humano não nos parece disposto e preparado, neste momento, a ter uma vida inteira para dedicar-se a conhecer mais a si mesmo, o mundo, os outros e trabalhar em sua vida espiritual.

Muito tem se falado – e cada vez mais – a respeito do esporte como meio de se tirar crianças e adolescentes das drogas. Não incluiremos aqui a vida no crime ou a depressão, pois nosso escopo de discussão é reduzido ao consumo de drogas. Apresenta-se o esporte como a alternativa saudável, o caminho correto para uma vida melhor, onde tem-se a opção de adquirir novos hábitos e novos valores para a vida.

E realmente o esporte traz novos hábitos, diferentes em quase tudo daqueles aos quais uma pessoa se acostuma quando está viciada em drogas ou em um consumo constante de entorpecentes. Os valores mudam, pois entra-se com disciplina, determinação, um certo regramento nos hábitos alimentares e nos hábitos de vida de um modo geral. E em muitos casos as crianças e adolescentes podem encontrar novos rumos para suas vidas.

Até o momento em que entram para o esporte profissional e competitivo. Neste âmbito, lamentavelmente, não podemos nos jactar em afirmar uma mudança para um estilo de vida mais saudável ou longe das drogas, haja visto a quantidade enorme de atletas completamente comprometidos em sua saúde devido ao alto nível de exigência por resultados, bem como o aumento considerável de casos de doping em quase todos os esportes possíveis. 

Quando pensamos neste lado do esporte, parece-nos ser apenas uma troca de drogas ilegais do ponto de vista civil para drogas ilegais do ponto de vista esportivo. Em que pese questões de vício, overdoses e questões familiares e civis, as drogas utilizadas no esporte podem comprometer em alto grau a saúde de um atleta, bem como sua possível vida pós-esporte. Aqui navegamos por um terreno já conhecido mas ainda com muito a ser explorado e descoberto.

O desenvolvimento de drogas cada vez mais poderosas e eficientes, bem como “invisíveis” aos testes anti-doping compromete não apenas a saúde de seu consumidor, sendo apenas uma troca de drogas, como acabamos de mencionar. Mas ensina valores muito contestáveis a seu consumidor, pois o doping é, antes de tudo, uma trapaça, um engano, um desvio de condução. 

Seu consumo é a corroboração de um caráter corrompido, fraco, desejoso de vitória a qualquer preço, seja ele a saúde, seja sua honra e seus valores. Um estudo comparativo bastante esclarecedor seria um comparativo entre o percentual de atletas cujas mortes foram causadas por consumo de substâncias consideradas dopantes para aumento de performance e o percentual de dependentes químicos mortos por overdose ou dívida com drogas. Os resultados poderiam surpreender.

O esporte amador, o esporte como possibilidade de novos hábitos segue como algo importante, renovador na vida de um ser humano. Mas somos bastante céticos quando saltamos do esporte amador para o esporte profissional e competitivo. Olhemos para os atletas sobreviventes do consumo de substâncias dopantes e vejamos suas condições de saúde quando chegam aos 50, 60 anos ou mais.  

O que acontece quando pessoas sem preparo, sem conhecimento e sem capacidade de reflexão tomam decisões importantes? Num primeiro momento, muitos concordariam em dizer tranquilamente: consequências ruins, más decisões, entre outras coisas. Mas e quando sequer nos damos conta desta circunstância? E quando quer sabemos se isso está acontecendo ou não?

Antes de irmos a exemplos grandes e relevantes, ocupemo-nos de coisas mais imediatas, de exemplos mais simples e – assim esperamos – tangíveis à realidade cotidiana. Pensemos por exemplo primeiro no âmbito artístico. Imagine-se escolhendo atores para representarem em uma peça. Quem deveria escolhe-los? A quem cabe a competência de eleger os mais capazes?

Se você pensa em abrir um restaurante, vai precisar de pessoas trabalhando nas mais variadas áreas. Que acontece se você colocar um faxineiro para ser o sommelier da casa? Ou se você colocar o sommelier na cozinha, preparando pratos elaborados? Não apenas você vai precisar colocar os trabalhadores correspondentes nas áreas onde melhor desempenham funções, como vai precisar saber escolher os profissionais para cada área.

Deixar a construção de uma ponte nas mãos de um mau engenheiro é o mesmo que deixa-la nas mãos de alguém sem estudos em engenharia. O resultado será ruim. A educação das crianças e jovens nas mãos de maus professores pode estar entre as piores coisas que se faria ao futuro de um país. E os exemplos poderiam multiplicar-se, ora semelhantes, ora distintos, mas sempre girando em torno ao mesmo assunto.

Ora, eleger políticos em um país, a princípio, não deveria ser diferente. Não apenas bons candidatos aos postos a serem ocupados, mas também bons eleitores, pessoas com a competência e conhecimento necessários para escolher estes futuros “empregados” da nação. Mas o que acontece quando temos pessoas sem o menor conhecimento do assunto escolhendo candidatos sem o menor preparo para o posto?

Este o quadro atual em muitos países do mundo, não apenas no que se refere à eleições, mas também à educação nas mais variadas áreas, passando pela dança, música, teatro; nas empresas, com os cargos ocupados por indicação, não por competência; no esporte, com atletas conseguindo trabalho graças a agentes, não ao talento e qualidade. E em quase toda pequena esfera social o mesmo padrão se repete.

Uma sociedade melhor organizada, voltada para o desenvolvimento dos cidadãos, com pretensões a ser uma sociedade mais equilibrada, mais justa, mais estimulante para quem nela vive deverá se confrontar, em algum momento de sua história, como todas essas questões, tomando decisões que podem mudar seu rumo para sempre.